Albergue no Recife: Arrecifes Hostel

28 jul

Antes da Copa do Mundo, algumas pessoas me pediram indicação de albergue no Recife. Não sei se isso já aconteceu com você que me lê: vez ou outra, as pessoas pedem dica de hospedagem pra um morador da cidade, que normalmente não conhece as opções simplesmente porque nunca precisou usá-las, né :P O que costumo fazer, então, é passar os nomes dos que já ouvi falar: Albergue de Olinda e Albergue Sítio do Carmo, na nossa cidade vizinha Olinda, e Hostel Boa Viagem, Piratas da Praia e Arrecifes Hostel, no Recife.

Se hospedar em Olinda é interessante; a Cidade Alta é uma delícia e tem uma atmosfera bem legal. No caso dos dois albergues que mencionei, você fica perto do Centro Histórico da cidade, mas não muito longe do Centro do Recife. Pra quem quer ficar perto da praia e da badalação recifense, o bairro de Boa Viagem, na Zona Sul, é uma boa (apesar de eu, Zona Norte desde pequenininha, considerar essa região quase outra cidade, é onde ficam quase todos os hotéis e onde os turistas costumam se concentrar).

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Não conheço a estrutura de nenhum dos albergues exceto o Arrecifes Hostel,  que é vinculado à Hostelling International. Nunca me hospedei lá, mas visitei o lugar durante o Blog Day Recife, encontro de blogueiros que rolou por lá recentemente (e foi massa, btw). Apesar de não poder opinar sobre aspectos como conforto, limpeza e serviço sob o ponto de vista de um hóspede, achei que valia a pena mostrar aqui o que pude perceber sobre o albergue e o staff ;)

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Nos dois dias em que fui lá, o pessoal da recepção foi extremamente simpático. Se forem assim com quem hospedam também, tão de parabéns. São dois quartos de casal e os outros coletivos, com capacidade pra 4, 6 ou 8 pessoas e divididos em feminino e masculino. Os quartos coletivos que visitei têm um tamanho ok (podiam ser maiores, mas não são minúsculos), beliches ok, janelas grandes e um gavetão de madeira pra você guardar a mala ou trecos de valor – mas lembre-se de trazer cadeado pra fechar o locker.

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Tem também uma área de “estar” com TV, cozinha coletiva, um computador pra uso dos hóspedes, mesa de sinuca, piscina, sofá, venda de bebidas e lanches pra aquela fominha fora de hora e café da manhã incluído na diária. Ah, e wi-fi, aluguel de toalhas e aluguel de bicicletas ;) Na beira da praia tem ciclovia, então pegar uma magrela e dar um passeio é uma boa! Alguns quartos têm ventilador de teto e outros ar-condicionado. O banheiro coletivo (pelo menos o feminino, onde entrei) é razoável, mas achei que a parte dos chuveiros podia ser melhor: eles usam cortina em vez de porta e não tem muito espaço pra pendurar coisas e se trocar.

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Achei o ambiente bem agradável, novinho, limpo e arejado. A estrutura é simples, mas confortável, e a decoração também não é nada de mais, mas bonitinha – com direito a chita, paredes coloridas e papéis com curiosidades sobre a cidade. Eles têm uma regra de não usar a piscina ou fazer barulho depois das 22h, então acho que deve ser ok pra dormir (pensei que talvez não fosse porque os quartos coletivos têm janelas que dão pra área da piscina, mas se a galera respeitar as regras isso não deve ser um problema).

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O único ponto meio negativo que percebi é a localização – nisso, o Piratas da Praia e o Hostel Boa Viagem se saem melhor. O Arrecifes fica a só 2 km do aeroporto, então o táxi dá baratinho e não é difícil ir de ônibus. Por outro lado, ele tá bem “pra dentro” de Boa Viagem, ou seja, não é super perto da praia (são 900 m). Também fica mais pra o sul da Zona Sul, o que o torna um pouco distante do Recife Antigo (uns 13 km), de Olinda (20 km) e principalmente da Zona Norte, onde também tem coisas que merecem a visita (Recife não é só praia!).

As ruas nos arredores não são bonitas e não oferecem muitos atrativos – é uma zona bem residencial e simples, então não espere bares legais a 5 minutos de caminhada, mas dá pra encontrar os serviços básicos, como padarias, restaurantes, farmácias etc. Resumindo: não é o lugar ideaaal, mas pelo que eu vi, passa longe de ser uma roubada ;) Se você ficar lá, me conta o que achou!

(Re)descobrindo o Recife: O museu Cais do Sertão

18 jul

Na entrada, um juazeiro. Seco, com mais de 50 anos e pesando 10 toneladas, ele foi trazido do interior de Pernambuco pra junto do mar. Seu trabalho, agora, é receber os visitantes do Cais do Sertão, no Bairro do Recife. Um dos equipamentos culturais mais recentes e mais incríveis da cidade – que fica pertinho do meu trabalho e tenho a sorte de poder visitar na hora do almoço, rá ;)

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Dedicado a retratar a vida e a cultura do Sertão nordestino, terra de origem e fonte de inspiração do grande Luiz Gonzaga, o museu usa a vida desse artista pernambucano como fio condutor, ao mesmo tempo em que mistura o tradicional ao moderno. O Cais do Sertão foi instalado no lugar de antigos armazéns no Porto do Recife e aproveita vários recursos tecnológicos pra possibilitar interação e diversão enquanto a gente vive um pouco dessa realidade tão brasileira. Esse mergulho tá dividido em diferentes facetas: viver, trabalhar, cantar, ocupar, crer, migrar e criar.

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É difícil não se impressionar desde os primeiros passos. O espaço é amplo e mescla de maneira natural a reverência à obra de Gonzagão – podemos ouvir suas músicas, conhecer seu percurso, tocar instrumentos e até cantar – à história do Sertão. Já no começo, encontramos as roupas e a sanfona do artista, a reprodução de uma casa sertaneja, depoimentos e explicações sobre objetos e personagens típicos dessa região. É uma aula bem lúdica sobre coisas que tão aqui pertinho da gente, mas frequentemente não recebem o devido valor. Pra quem vem de fora, a curiosidade deve ser ainda maior :)

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Entre o barro e o touch screen, eu e todo mundo que conheço que já foi lá ficamos encantados. Num jogo apresentado por Tom Zé, somos desafiados a pensar em soluções para a seca. Aqui e ali encontramos brinquedos e objetos de trabalho sertanejos. Num espaço fechado, vemos um curta-instalação do recifense Kléber Mendonça Filho. Num túnel todo modernoso, ouvimos vários sinônimos de diabo: demônio, coisa ruim, capeta, satanás… E em duas salas, uma na entrada e outra ao fundo do andar térreo, são exibidos curtas assinados por cineastas como Lírio Ferreira, Paulo Caldas e Marcelo Gomes.

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O Sertão vai virar mar, o mar vai virar Sertão

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A essa altura, você provavelmente já vai estar achando tudo muito bom, muito legal, mas ainda tem mais! Suba as escadas e encontre umas surpresas no primeiro andar ^^ A minha parte preferida é homenagear Gonzaga, o inventor do baião, com minha cantoria linda (só que não) no karaokê :D Depois de escolher entre alguns dos grandes sucessos do artista (tem “Olha pro céu, meu amor”, “Asa Branca”, “Qui nem Jiló”, entre outras) e arrasar no gogó, dá pra ouvir o resultado – e rir bastante, se você tiver habilidades musicais similares às minhas. Uma pena que não é possível enviar o áudio pra nosso e-mail ou redes sociais, né? Ia ser divertido e ajudar a divulgar o museu – ficadica :)

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Também no primeiro andar, podemos bater um papo com emigrantes sertanejos. São várias telas com depoimentos de pessoas que saíram do Sertão e arredores (incluindo outro Luiz, nosso ex-presidente) e levaram a cultura dessa região e as canções de Gonzaga Brasil afora. Enquanto a gente não tá sentado ouvindo o que eles têm a dizer, eles ficam nos esperando, se mexendo, se ajeitando na cadeira e coisa e tal. Achei fofo. Pra completar, tem ainda uma sala onde ficam à disposição dos visitantes uma série de instrumentos musicais pra desenrolar um forróxotebaiãowhatever ;)

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A curadoria e a direção de criação do Cais são assinadas pela pernambucana Isa Grinspum Ferraz, que também trabalhou na concepção do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, considerado referência nessa vibe de tecnologia e interação. E além dos cineastas que já mencionei, grandes nomes como o xilogravurista e cordelista J. Borges e o artista plástico Derlon Almeida também produziram conteúdo pra o museu.

Ao lado desse primeiro módulo do Cais do Sertão, também tá em construção um Centro Cultural com auditório, salas pra oficinas, restaurante, café, loja etc, que deve ser inaugurado no final do ano. Quando estiver pronto volto aqui pra mostrar também, é claro ;)

Serviço:

O Cais do Sertão abre de terça-feira a domingo.
Localização: Avenida Alfredo Lisboa, um pouco depois do Marco Zero, no Recife Antigo.
Ingressos: R$ 8 (inteira) e R$ 4 (meia); gratuito às terças.
Confira o horário de funcionamento, valores atualizados e mais informações no site oficial.

 

[Livro] A Rua de Todo Mundo, ou interculturalismo para crianças

16 jul

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Descobri o livro A Rua de Todo Mundo, de Carolina Nogueira, bem por acaso. Dessa coisas que só a internet faz pela gente ;) Vi no Facebook de uma amiga o link de um post que Carolina, jornalista e ilustradora, escreveu sobre o parto de uma amiga dessa amiga. Achei tão bonito que fui explorar o resto do blog e me deparei com, txarans, um livro infantil.

Não, não tem nenhuma criança na minha vida. Nem primos, nem sobrinhos, nem afilhados pequeninos. Mas achei a premissa da obra tão fofa que fui logo pedindo um exemplar. Pra um futuro sobrinho ou um futuro filho, quem sabe, mas antes de tudo pra criança que vive em mim ;) Como bem ressaltou, aliás, a dedicatória fofa – e ilustrada – que a autora fez no meu exemplar ^^

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E assim como este blog por onde vos escrevo, o livro surgiu a partir de uma viagem. Carolina morou com os filhos em Paris por alguns anos e, nesse período, percebeu que não existiam barreiras entre as crianças de países diferentes. Seus filhos e os amiguinhos deles, observou, eram sensíveis às diferenças como algo que desperta a curiosidade, e não como um obstáculo. E não é assim que tem que ser?

Com a ajuda de amigos que moram em diversos países do mundo, a autora escreveu uma história simples, composta pelas descrições de uns 20 personagens fofos de diversas nacionalidades, cada um mostrado com particularidades ligadas à sua cultura ou ao simples fato de ser criança. Como diz a contra-capa do livro, “tão lindas quanto as diferenças que existem entre as culturas são as semelhanças que aproximam todas as crianças do mundo”.

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Falo de “interculturalismo” aí no título porque, pra mim, esse livro é uma forma singela de ajudar as crianças (e adultos também, por que não?) a compreender a natureza pluralista do nosso mundo e a importância (e delícia) do diálogo entre as culturas. Porque a “rua de todo mundo”, aquela compartilhada, onde todos são felizes juntos, é a mais legal de todas.

Resumindo: não entendo nada de literatura infantil (nem de crianças, na verdade. hehe). Mas achei a história delicada, informativa e importante pra ajudar a criar uma geração de pessoas mais abertas às diferenças que se escondem por trás das fronteiras. Uma boa forma de estimular a curiosidade sobre outros países, hábitos e culturas. Imagino crianças perguntando pra os pais onde fica a Bélgica, por que faz frio na Polônia ou se é verdade que na Turquia os nomes das pessoas sempre têm um significado. E imagino pais pesquisando pra responder a algumas das perguntas ;)

Quer mostrar a alguma criança querida como é bom aprender desde cedo a conviver com as diferenças? Compre o seu e, se puder, envie uma foto d@ pequen@, pra ganhar uma dedicatória ilustrada como a minha. Como se não bastasse, o livro ainda veio numa embalagem fofa, artesanal e cuidadosa. Um mimo <3

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Dois anos de blog e fim da Copa

14 jul

Ontem acabou a Copa do Mundo no Brasil. E hoje o Janelas Abertas completa dois aninhos de vida. Pensei em fazer dois posts separados, mas blog é um troço pessoal, né? E pra mim, pessoalmente, esses dois fatos tão meio que relacionados. Então vai tudo num bolo só mesmo ;)

Primeiro o blog. Quando ele nasceu, eu tava nos últimos preparativos pra ir fazer mestrado em Valladolid, na Espanha. Quando ele completou um ano, eu tava defendendo a dissertação do mestrado e arrumando as malas pra passar uma temporada em Budapeste. Agora, faz quase um ano que tou de volta ao Recife. E olhe tempo pra passar rápido, viu?

Desde essa última volta (“última” no sentido de “mais recente”, só pra deixar claro), minha área de trabalho mudou. Minha visão sobre a minha cidade também – devido não só às coisas que vivi lá fora, mas também ao que tem acontecido no Recife ultimamente. E no meio de tudo isso, meus planos pra o futuro foram se transformando um pouco. O blog – e vocês leitores lindos – teve um papel importante nisso, e terá ainda mais no futuro, se Deus quiser ;)

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O primeiro post do blog ^^

Em breve, a carinha do Janelas vai mudar. A frequência de postagens, espero, vai voltar ao que era nos meses mais regulares – pelo menos três posts por semana. Um projeto paralelo no qual embarquei de gaiata, e que tem tudo a ver com o blog, também tá tomando forma.

Entre outras novidades que devem vir por aí, a médio e longo prazo, graças a você que me lê :) E graças a essa sede que não passa. Essa vontade que continua me dando – mesmo que por vezes atropelada pelas 354 coisas que eu invento de fazer – de explorar o mundo, de escrever, de compartilhar e de aprender com vocês.

Agora a Copa. Eu sempre disse que se me fosse dada a possibilidade de escolher, lá nos idos de 2006, se o Brasil se candidataria pra sediar o evento, eu diria que não. Achava que não valia a pena por tudo de negativo que o Mundial podia trazer, e que aparentemente trouxe: desvios de verba, desapropriações, elefantes brancos, obras de infraestrutura sendo feitas “nas coxas” e deixando um legado bem longe do ideal, movimentos sociais criminalizados…

Mas ela chegou. E muita coisa ruim aconteceu; muito que a gente nem sabe ainda, muito que a mídia esconde. Felizmente, ao menos, tem gente reforçando o papel social do jornalismo por aí e mostrando um pouco do que há de podre no reino da Dinamarca, como a Mídia Capoeira, Agência Pública, entre outros. Muita coisa negativa pra que a festa fosse bonita, é verdade. Mas uma coisa não posso negar: ela foi bonita mesmo.

Num nível bem pessoal, eu me surpreendi muito com a delícia que foi esse último mês. Nunca dei a mínima pra futebol, não cogitei pagar caro pra ver um jogo, achava que na minha cidade nem ia rolar Fan Fest e que os momentos de jogos iam ser todos em ambientes privados e fechados. Mas quando ela começou, tudo mudou :)

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Retratos do último mês ;)

Acabei indo ver dois jogos na Arena Pernambuco e me diverti litros com aquela profusão de torcedores fantasiados, pintados, interagindo, brincando, tirando fotos, trocando itens das suas respectivas seleções… Acabou rolando Fan Fest e aquele lugar virou minha segunda casa por 30 dias. E me peguei assistindo – e prestando atenção de verdade, pela primeira vez na vida – a vários jogos de seleções aleatórias :O

E no meio disso tudo, finalmente aprendi como uma Copa do Mundo pode ser fascinante, dramática, divertida e – o que é mais legal – o potencial que ela tem pra criar um clima de conversa global, mesmo que temporário. Esse evento, mesmo que indiretamente, trouxe coisas ruins pra muita gente e disso não podemos nos esquecer. Mas também criou uma vibe muito especial em terras brasileiras, transformando meu Recife e outras sedes outrora tranquilinhas e desconhecidas do ‘público internacional’ em cidades cosmopolitas do dia pra noite. Como resultado, vi e vivi um intercâmbio cultural intenso, num país onde poucos podem viajar e entrar em contato com outras realidades.

Fazendo uma mini retrospectiva, várias lembranças alegres vêm à mente – bem mais fortes que o sofrido 7×1, aliás ;) Como o dia em que levei um grupo de mexicanos pra um bar pé-sujo aqui no Recife e vi os caras batendo papo em portunhol e mímica com senhoras que tavam por lá, achando tudo maravilhoso apesar da péssima estrutura e da cerveja quente. Ou as conversas que tive com taxistas e garçons cheios de histórias pra contar sobre coisas que aprenderam e ensinaram aos gringos.

Também ouvi de um americano que ele tava muito feliz porque aqui as pessoas falam olhando no olho, enquanto outro chegou a afirmar que depois do tempo passado no Brasil tinha vontade de ser uma pessoa melhor e mais generosa, vejam só. Vi gente que nunca tinha pensado em conhecer minha cidade aprendendo a comer farofa (que não, não é areia) e lembrando à nossa gente o quanto a gente é massa :) E esses são só alguns exemplos, e você que tá lendo provavelmente tem sua cota de histórias pra contar.

Mas agora os dois assuntos juntosemisturados. Como disse uma amiga, no último mês o mundo quase todo coube no Brasil. E isso, acredito, lembrou a muita gente o quanto esse mundo é grande, diferente, controverso. E ao mesmo tempo, formado por pessoas! Seres humanos que entre uma cerveja e um gol, entre um passinho de frevo e uma tapioca, podem ter ajudado a reforçar o espírito de que no fundo, todo mundo tá junto em pelo menos uma coisa: querer ser feliz.

O orgulho de ser de um país que recebe tão bem se misturou à alegria de conhecer tanta gente diferente e trocar experiências. O futebol era só um pretexto: o mundo é um só e tá aí pra gente conhecê-lo, abrindo as nossas janelinhas internas pra o que ele tem a oferecer. Vamos nessa?

Nem sempre viajar é a resposta

27 jun

Não, eu não desisti do blog e tou fazendo apologia antiviagem (pausa pra você comemorar, hehe). É que eu li no perfil de um cidadão numa rede social uma frase que me chamou atenção: “Uma pessoa vale o quanto ela viaja”.

Não, meu amigo. Como dizem por aí, você está fazendo isso errado.

Viajar não garante upgrade do valor de ser humano nenhum. Viajar não é, tampouco, a grande solução para todos os seus problemas, certeza de felicidade incondicional ou passagem garantida para o paraíso. Quem me dera! ;)

Pra começar, um fato óbvio: nem todo mundo gosta de viajar. Tem quem prefira ficar em casa, ame sua rotina, sinta muito mais carinho pelo apartamento montado com tanto cuidado do que pelas milhas aéreas, e não há nada de errado nisso.

Outra obviedade: tem quem não tenha grana pra fazer nem mesmo a viagem mais econômica possível, porque faltam coisas muito mais básicas e urgentes. E mais uma: tem também momentos nas nossas vidas em que simplesmente não é hora de cair no mundo.

Sim, esse é um blog de viagens (ainda que num sentido mais amplo). Mas não quero, deusmelivre, passar a impressão de que acredito nas viagens como entidades superpoderosas e fundamentais pra realização pessoal de toda e qualquer pessoa. Como já falei aqui algumas vezes, pra mim as viagens de verdade, dessas que mexem com a gente, são muito mais um estado de consciência do que um ponto no GPS.

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Você tem um travel monster dentro de si? Maravilha! Tamos juntos. Ainda assim, criar expectativas demais em relação a uma viagem pode ser bem ruimSair da zona de conforto, abraçar o desconhecido, se desafiar, ultrapassar barreiras e conhecer outras culturas são todas ações muito poderosas, com potencial de mudar sua vida. Mas não necessariamente isso vai acontecer.

Se as condições não forem propícias – tanto dentro quanto fora de você -, a viagem pode não ser assim tão enriquecedora. E se a motivação for uma fuga, você pode perceber que a distância física não é suficiente pra se afastar de certas coisas e que nem sempre adianta cruzar oceanos se você foge de algo que faz parte de você.

Outra coisa que às vezes nos escapa é que tampouco é necessário ir muito longe pra viver experiências transformadoras ou pra ver a vida de outra forma. Em geral, é mais difícil fazer coisas diferentes na sua própria cidade, ficar atento aos pequenos prazeres da vida no meio da rotina de sempre e encontrar a beleza que existe no cotidiano cinzento. Mas existe algo de perigoso, creio eu, em depositar toda sua esperança de felicidade em algo que geralmente não pode ser uma constante em nossas vidas. E, nesse processo, se esquecer de todas as outras coisas lindas que tão ali do lado :)

Sim, esse é um blog de viagens, e não por acaso. Viajar é algo que tem feito de mim quem sou, e lembrar de como me senti ao viver diversas experiências longe de casa me traz infinitos apertos de saudade. Viagens são e acho que sempre serão prioridades pra mim.

Ainda assim, precisava tentar contribuir um pouco, assim como já têm feito outros blogueiros, pra desmistificar esse auê simplista de quem fala que viagens são o único gasto que te deixa mais rico, por exemplo. E a grana que você investiu em livros, cursos, filmes, espetáculos? E o dinheiro desembolsado pelos seus pais (ou por você mesmo, se tiver filhos) pra sustentar uma nova pessoinha nessa vida e testemunhar sua descoberta do mundo? Isso tudo não te enriqueceu como pessoa?

Digo tudo isso não só pra você que tá me lendo, como pra mim mesma. Não acredito que o bichinho da viagem jamais vá adormecer em mim, e nem quero que isso aconteça. Não se passa um dia sem que eu pense num dos próximos destinos a visitar, nas tantas coisas que esse mundão ainda guarda pra eu descobrir.

Mas repito (sim, eu me repito muito ^^): encaro esse verbo que tanto apareceu nesse post – viajar, viajar, viajar – como um processo muito mais amplo do que comprar passagens e pesquisar pontos turísticos. E como algo tão especial que não pode, ou não deve, ser transformado em dogma.

Pra terminar o blábláblá: enquanto você não pode cruzar fronteiras – sejam elas da sua cidade, estado ou país -, que tal criar estratégias pra sentir um gostinho do que as viagens podem trazer (novidade, troca, deslumbramento, aprendizado etc e tal)? Frequentar encontros do Couchsurfing na sua cidade, conversar com gente de fora pela internet, explorar sua cidade como você se fosse de fora, conhecer outros bairros e comunidades, ver filmes inspiradores, ler, ouvir música… As possibilidades são quase infinitas \o/

E você, o que pensa sobre isso? E o que faz pra viajar enquanto não pode viajar? :)