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Flor do Deserto: De nômade a modelo e embaixadora da ONU

Livros | 03/01/14 | 8 comentários

Waris significa, em somali, “flor do deserto”. Uma forma de vida que brota e resiste em meio à aridez, como que desafiando as dificuldades impostas pela natureza. Com esse nome carregado de esperança, foi batizada uma de muitas crianças nascidas num dos países mais pobres do mundo, que cresceu lutando pela vida a cada dia, vivendo como nômade enquanto pastorava animais em busca de água. Crianças essas que, pra serem consideradas mulheres, limpas e puras, têm seus genitais brutalmente mutilados. Que não têm suas vozes ouvidas e que muitas vezes são obrigadas a se casar com homens mais velhos. Mas Waris Dirie contrariou as probabilidades e não só fugiu do casamento arranjado, como chegou bem mais longe do que se esperava – como aquela flor que insiste em sobreviver no meio do deserto.

Aos 13 anos, ela atravessou o deserto da Somália sozinha por dias e noites sem comida e água, pegou caronas e ficou à mercê de homens brutais, chegou à capital Mogadíscio e acabou indo parar em Londres, onde passou anos trabalhando praticamente como uma escrava. Waris Dirie, autora do livro Desert Flower (em português, Flor do Deserto), sempre sentiu que sua vida lhe reservava mais do que a luta diária pela sobrevivência. Ela não sabia o quê, mas foi atrás. Enfrentou inúmeras adversidades, aproveitou oportunidades que surgiram no seu caminho e chegou aonde nunca tinha imaginado: tornou-se uma modelo de renome internacional e conheceu o mundo.

E, depois de reunir a coragem pra tornar público um dos fatos mais traumatizantes da sua vida, ela falou em uma entrevista sobre a mutilação genital que sofreu aos cinco anos. “É tarde demais para mudar minhas próprias circunstâncias, o dano já foi feito; mas talvez eu possa ajudar a salvar outra pessoa”, explica, ao lembrar-se da decisão de abordar o assunto publicamente. Como resultado dessa coragem, Waris foi muito além da imagem de “ex-nômade transformada em top model”: ela foi convidada pra ser embaixadora especial da ONU pelos direitos das mulheres na África, colaborando na luta contra a mutilação genital feminina.

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No livro (que foi co-escrito por Cathleen Miller), acompanhamos todo esse percurso, contado em primeira pessoa de forma simples e sincera. Li tudo em uma tarde, enganchada que fiquei no olhar de Waris sobre sua vida na Somália e sua chegada a Mogadíscio e a Londres. As palavras de  Waris nos mostram a estranheza de encontrar um modo de vida totalmente desconhecido. Desde não saber usar um vaso sanitário a não entender por que as pessoas eram brancas (seria uma doença? falta de sol? onde estava a cor daquela gente?), passando pela dificuldade de guiar sua vida por relógios e pelo aprendizado de novas normas sociais. A força dela pra lidar com o imenso choque cultural que vivenciou é impressionante.

Flor do Deserto é, enfim, uma biografia instigante. Waris tem senso de humor e não esconde momentos em que agiu de forma pouco louvável, digamos assim. Li críticas sobre o egoísmo dela em relação aos amigos que a ajudaram e sobre a improbabilidade de certos fatos serem verdade. Pra mim, nada disso importa. O que eu guardei da leitura foi o esforço pra superar as chagas que a marcaram – literal e figurativamente – e o exemplo de resiliência e determinação, que sem dúvida são verdadeiros.Também achei fascinante a primeira parte do livro, em que ela conta sobre a vida dos grupos nômades desse pedaço do mundo – uma cultura que pra gente é tão estranha quanto o “mundo ocidental” era para a Waris adolescente.

A obra foi transformada em um filme de mesmo nome, que dá pra encontrar fácil pra ver em streaming, mas infelizmente ele é fraquinho e superficial. Pra completar, alguns fatos foram alterados sem nenhum motivo aparente além de impressionar mais o espectador. Não acredito que todo livro é melhor do que a adaptação cinematográfica, mas esse definitivamente é o caso. Ah, e a quem interessar possa, Waris também escreveu Desert Dawn, contando sobre a vida dela depois do que foi relatado no primeiro livro e sobre seu retorno à África.

Mutilação Genital Feminina (MGF)

Achei que valia a pena abrir um tópico só pra esse tema, que marcou a vida de Waris e tá sempre presente no livro. Sinta-se à vontade pra parar de ler por aqui, se quiser ;)

Estima-se que três milhões de meninas são submetidas à mutilação genital a cada ano, principalmente em alguns países da África (como a Somália) e do Oriente Médio. Atualmente, cerca de 140 milhões de garotas e mulheres estão vivendo com as consequências da mutilação. Há vários tipos de MGF, incluindo a remoção total ou parcial do clitoris, a remoção dos pequenos lábios (e às vezes também dos grandes lábios) e a infibulação, que consiste em fechar a vagina deixando uma abertura bem pequena pra passagem de urina e menstruação.

Às vezes a MGF é realizada por médicos, mas a maioria dos casos se assemelha ao de Waris: a mutilação é realizada por uma mulher da comunidade, com instrumentos de corte inapropriados como facas, cacos de vidro, navalhas. Entre as razões pra fazê-lo estão o objetivo de garantir que as filhas consigam um marido (porque os homens não aceitariam mulheres não “circuncisadas” e ficar solteira não é uma opção) e permaneçam fiéis a ele e a crença de que os órgãos sexuais femininos são impuros.

Levantar a voz contra a prática não deve ser nada fácil. Waris faz questão de dizer que tem orgulho do seu país, da sua cultura e da sua família. Que não culpa sua mãe por ter lhe segurado em cima de uma pedra enquanto uma mulher lhe mutilava sem nenhuma condição de higiene, no mesmo procedimento que levou tantas meninas à morte. Que seu pai não tinha consciência do sofrimento que estava infligindo sobre ela. Mas ressalta que essas práticas culturais não precisam permanecer sob o pretexto de manter as tradições. “Assim como sabemos hoje que podemos evitar doenças e morte com vacinação, sabemos que mulheres não são animais no cio, e que sua lealdade tem que ser conquistada com confiança e afeto, ao invés de rituais bárbaros. Já chegou o tempo de deixar as antigas formas de sofrimento para trás”, diz Waris, que criou a Desert Flower Foundation pra combater a prática.

A mutilação genital feminina é um dos exemplos mais clássicos usados ao se discutir a questão do relativismo cultural no âmbito dos direitos humanos (que se caracterizam por sua universalidade). Há quem diga que práticas como essa devem ser respeitadas porque fazem parte da cultura desses povos, ainda que representem uma grande violação dos direitos humanos e não tragam nenhum benefício à saúde (física ou psicológica). Nesse sentido, esse artigo interessante (que parte do filme pra discutir a questão) observa um ponto importante: “Se uma tradição reflete a autonomia daqueles que a selecionaram, determinadas tradições podem oprimir as parcelas da comunidade que não tiveram voz no momento da seleção, e não têm voz para mudar o status quo desigual em que vivem”.

Afinal, como ressalta Waris, as mulheres são a espinha dorsal da África, responsáveis por muitas atividades importantes em sociedades como aquela em que ela cresceu, mas têm suas opiniões, vontades e necessidades ignoradas. E como afirma o mesmo artigo, a mutilação contribui pra reproduzir uma hierarquia artificial e perniciosa entre o homem e a mulher – sem falar no enorme sofrimento físico e psicológico provocado.

Você pode ler mais sobre o assunto em português na página da Anistia Internacional de Portugal, nesse especial da Deutsche Welle e nessa matéria do G1, e em inglês na página da Organização Mundial de Saúde, no site da Desert Flower Foundation e no site do Fundo de População das Nações Unidas, entre muitas outras fontes.

Comprei o livro e o recomendei por iniciativa própria, mas se você comprá-lo pela Amazon usando o botão acima, o blog ganha uma pequena comissão e você não paga nada a mais por isso. O Janelas Abertas preza pela transparência com os leitores: você não vai encontrar aqui nenhum conteúdo de caráter comercial que não esteja sinalizado como tal. As opiniões expressas no texto são minhas e não sofreram influência de terceiros. Para saber mais sobre as políticas do blog, clique aqui

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8 Comentários

  1. RFK

    Nem li o livro ainda, mas já concordo com sua leitura. Não importa muita coisas; outras, importam muito! Quero ler!

  2. Sâmella

    O filme é ótimo e traz uma mensagem e tanto.. O livro deve ser muito bom!
    Vou ler, Valeu a dia ;)

    • Luísa Ferreira

      Leia mesmo, Sâmella! :D Se lembrar, depois me conta o que achou. Um abraço!

  3. Marta vieira

    Eu adorei este livro.
    Encontrei- o em um hotel em Óbidos – Portugal. Foi um verdadeiro presente. Passei uma noite inteira lendo este livro. Não queria partir sem acabar de le-lo. Recomendo demais.

    • Que delícia encontrar um bom livro assim de surpresa, Marta! Muita sorte :) Também gostei muito <3 Obrigada pelo comentário!

  4. Ana Luiza

    Vc comprou o original em inglês fora, em algum site ou livraria mesmo daqui de Recife?

    • Oi, Ana Luiza! Comprei na Amazon americana e pedi pra trazerem pra mim, mas vi que tem na Amazon daqui também, em versão impressa e ebook :) Um abraço!

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