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Caminho de Santiago: Manu e seus 27 dias de superação

Passar as férias andando dezenas de quilômetros por dia, vivendo com o mínimo de conforto, dormindo em quartos compartilhados com mais de 100 pessoas, lidando com problemas como bolhas nos pés e todos os conflitos internos que surgem em momentos de desgaste físico e solidão. Pode parecer loucura, né? Mas centenas de milhares de pessoas fazem isso todos os anos: são os chamados peregrinos que se aventuram a percorrer alguma das rotas do Caminho de Santiago.

O objetivo prático de todos eles é chegar a Santiago de Compostela, na Espanha, mas cada um tem suas próprias metas pessoais – ainda que às vezes nem as tenham muito claras no início do caminho. As motivações podem ser religiosas, o pagamento de uma promessa, o desafio físico, a busca por autoconhecimento, a vontade de superar um trauma ou várias outras, mas acho que inevitavelmente o caminho se transforma numa metáfora da vida.

Sempre achei o percurso interessante por tudo que oferece em termos de reflexão e também pela imersão numa vida simples, com pouquíssimos pertences (já que você terá que carregar tudo consigo) e compartilhando dores e aprendizados com desconhecidos. Uma das coisas que mais escuto de amigos que fizeram o Caminho é sobre a solidariedade tão latente, através de gente que te oferece um remédio pra bolhas ou motivação quando você começa a vacilar. Também penso muito sobre a importância, numa situação dessas, de cultivar a paciência e a mindfullness, ou seja, a habilidade de viver o presente e controlar a ansiedade – um dos meus maiores desafios.

Existem várias rotas possíveis (você pode ver alguns exemplos aqui), mas a mais tradicional é o chamado Caminho Francês, que começa em Saint Jean-Pied-de-Port, na França. E foi esse o percurso escolhido por Manuella Antunes, jornalista querida com quem trabalhei nos meus tempos de redação, pra passar seus 30 dias de férias na primavera (do hemisfério norte) desse ano. O “empurrãozinho” de Manu foi importante pra que eu decidisse ir sozinha pra Chapada Diamantina, e depois acompanhei o dia a dia dela no caminho pelos stories do Instagram.

Costumava achar que essa era uma empreitada muito ~radical~ pra mim, que sou sedentária, preguiçosa e ansiosa. Mas depois de seguir a viagem dela e dos meus dias na Chapada, me peguei lendo sobre o caminho (blogs como o Diários de Compostela têm várias dicas legais). Fiquei curiosa pra saber mais sobre a experiência de Manu, então bati um papo com ela e aproveitei pra trazer a conversa pra cá. :)

Como surgiu em tu a ideia de fazer o caminho?

Olha, lembro de dois fatos mas não sei qual veio primeiro. Há algum tempo eu me tornei o que chamam por aí de buscadora. Eu nem sei o que o termo quer dizer formalmente, se é que essa palavra pode ser aplicada. Mas sei que pra mim significa que, há algum tempo, eu venho buscando a mim mesma em várias práticas, em alguns tipos de conhecimentos. Em um desses momentos, uma mulher, meio bruxa, me disse que minha vida só ia andar quando eu aprofundasse na minha espiritualidade e comentou, bem por alto mesmo, que seria muito bom eu embarcar em caminhos e trilhas.

E teve também um amigo meu, com quem sempre conversei muito, que já havia feito o Caminho. Acho que foi através dele que tive o primeiro contato com a ideia do Caminho de Santiago. Daí eu cultivei essa ideia. Mas era uma sementinha só. Em 2016, como eu não tinha grana para ir para a Europa, mas a ideia já vivia em mim, passei minhas férias na Chapada Diamantina. E acho que isso foi o mais decisivo de tudo. Eu voltei transformada da Bahia e, a cada dia, me transformei ainda mais desde que voltei. Meu Caminho começou lá. Voltei pra Bahia no fim de ano e, na volta pra casa, fiz as contas e vi que dava. Decidi ir pro Caminho em janeiro e deixei pra resolver tudo depois do Carnaval.

Como foi teu percurso?

Eu fiz o Caminho Francês inteiro. Saí de Saint Jean Pied de Port, na França, cruzei os Pirineus franceses até a Espanha e de lá segui cruzando o território espanhol. Mas caminhei 620 km. Explico: Como eu fui num período de férias (emendado com feriados) o máximo de dias que consegui ficar fora foram 34 dias. Eu caminhei por 27 dias ininterruptos. E pulei de ônibus um trecho de cerca de 180 km, como eu tinha planejado antes de sair daqui. Isso porque eu caminhava uma média de 20km/dia. Tem gente que caminha mais, sabe? Mas era impossível para mim. Eu não tava ali para sofrer, para me punir e sabia que passar dessa média seria demais. Alguns dias que estiquei e caminhei 28 km e 31 km me senti muito mal, esgotada, sofri com dores e câimbras. Avaliei a melhor forma para mim.

Quanto tempo passasse planejando?

Então, eu decidi ir em dezembro e fui em abril. Mas comprei as passagens menos de dois meses antes. Eu não planejei o caminho e considero que esse foi um erro – e um acerto (explico depois) – meu. Eu costumo não pesquisar para viajar. Eu gosto de me surpreender e de deixar a viagem me levar. Pensei que poderia fazer isso com o Caminho, o que acabou acontecendo, mas o Caminho não é uma viagem comum. E eu não indico para ninguém ir tão despreparado quanto eu fui.

Como foi o processo de preparação?

Do ponto de vista psicológico acho que me preparei desde a Chapada. A falta de informação prática, no final, foi bom para mim, pois aliviou minha ansiedade. Eu pesquisei o básico sobre equipamento, comprei o necessário, pedi algumas coisas emprestadas. Mas não tinha um guia, por exemplo. E isso não existe. O Caminho é simples, mas não é fácil, é preciso se organizar melhor do que eu fiz. Fiquei completamente perdida nos primeiros dias lá, levei mais peso do que precisava. Sem um guia, eu nunca sabia para onde eu estava indo ou a distância que ia percorrer a cada dia e isso fez tudo ser mais difícil nos primeiros cinco dias.

Tinhas o costume de praticar atividades físicas?

Do ponto de vista físico, acho que foi ainda mais irresponsável da minha parte. Eu sou dessas que passa 4 meses fazendo exercício, 5 meses parada e assim sucessivamente… Eu tava sedentária há alguns meses antes de ir pro Caminho. Aí, um dia meu pai me ligou e disse: “você é uma irresponsável. Não tá fazendo nada, nem uma caminhada e vai pra essa viagem?” Faltava 45 dias pra eu ir e eu fiquei meio apavorada. Liguei pra um antigo personal e passei a fazer funcional e caminhadas (de, no máximo, 7km). Foi legal, importante, mas não é nada que prepare o corpo para o que eu ia viver. O primeiro desafio do Caminho é o físico. Para todo mundo. Dores generalizadas, lesões no joelho, bolhas etc. Vi lá que muita gente tinha treinado com mochila nas costas, feito caminhadas mega longas, mas ainda assim sofriam. Eu sofri um bocado. A dor não para, mas nos primeiros cinco dias é pior.

Deu medo de não conseguir terminar ou de não terminar a tempo?

Não. Eu tinha um prazo de dias e me programei pra caminhar dentro das minhas possibilidades. Repito: eu não fui pra sofrer e sempre tive em mente que, a qualquer momento, eu poderia avançar de ônibus, tirar um dia de descanso, o que fosse preciso. A real é que eu não tinha ideia do que era o Caminho. Lá, eu não tirei nenhum dia de descanso. Só não caminhei no dia que peguei o ônibus para avançar o trecho que havia programado.

Deu vontade de desistir? 

Acho que uma vontade real não deu, não. Mas nos primeiros 5 dias eu pensei várias vezes: “O que eu to fazendo aqui, meu Deus? Só sinto dor, caminho 10 horas, não curto as cidades, isso não é férias!!”. Mas eu sempre soube que eu ia chegar no fim. Tive medo de contusões, isso sim. Mas eu sempre soube que eu ia chegar caminhando, embora Santiago fosse algo em que eu nem pensava. Só comecei a pensar em chegar em Santiago e como seria nos últimos cinco dias. Muito engraçado isso.

Mas sobre desistir, tenho uma história boa: no quarto dia de caminhada, no trajeto de Pamplona para Puente La Reina, eu passei 11 horas caminhando. Não é normal, nem razoável. Mas eu tava no limite das minhas forças. Havia gasto muita energia nos primeiros dias, com a euforia do começo e também do meu aniversário de 30 anos. Daí, nesse dia, acho que minha energia baixou. Sair das cidades maiores, como Pamplona, é sempre difícil. Você caminha muito no perímetro urbano, se perde etc. Nem tudo isso acontece sempre, nem com todo mundo. Tem gente que usa GPS, sei que lá. Eu não tinha nem guia, como já disse. Então, nesse dia, tudo aconteceu comigo.

Foi uma caminhada muito difícil e cheguei, não sei como, em Puente de La Reina às 19h e tanto da noite. Logo na entrada da cidade, encontrei um Irlandês, o Alan, no auge do seu 3º Caminho. Ele olhou pra mim e, até hoje, diz que viu como eu estava perdida. De banho tomado e tendo chegado na cidade pouco depois do almoço, ele me ajudou a entrar na cidade, me deu a maior força (eu tava amaldiçoando minha decisão de férias) e disse que se eu saísse do albergue naquela noite ele pagaria meu jantar. Eu saí. Mas tava muito muito muito triste. Triste mesmo. Me sentindo pior que todo mundo. Uma loser geral. Ninguém leva 11 horas pra caminhar. Ninguém. Desconfio ter batido um recorde. Mas eu saí e, neste dia, conheci todo mundo que, até então, com tantas dores, medos e coisas para resolver, não tinha conhecido. Minha viagem mudou naquela noite. Alan foi meu anjo no Caminho. Sem dúvida.

Como era um dia “padrão” no caminho? 

O Caminho é assim: acordar no máximo 6h30, comer uma besteira, preparar os pés, caminhar. Eu geralmente caminhava 10km, aí parava, tomava café, fumava meu primeiro cigarro e seguia Caminho. Aí chegava nas cidades entre 14h e 15h – dependendo da distância e do terreno, se era mais ou menos acidentado. (Isso depois que peguei o ritmo, tá? Os primeiros 5 dias não foram assim). Quando chegávamos nos povoados, todo mundo se encontrava nos albergues. E aí sempre rolava uma conversa besta, um vinho, sentar num bar (os povoados pequenos só têm um), ou ficar no albergue. Eu não bebi no Caminho, porque praticamente não bebo, mas acompanhava a turma. Tem povoados que são um verdadeiro abraço, de tão aconchegantes, outros não. Alguns dias eram mais legais, outros menos. Feito a vida, né?

Como é essa questão da hospedagem?

O tradicional do Caminho são os albergues municipais. O clima é muito bacana mesmo. Os peregrinos se apegam muito. Mas eu fiquei em todo tipo de acomodação. Albergues públicos e privados foram os principais. Fiquei também em Hostel e em três hotéis – sempre que estava muito exausta, pois eu dormia muito muito muito mal nos albergues municipais, devido à quantidade de gente no quarto (chegava a ter mais de cem pessoas numa quarto só). Para mim, a noite e hospedagem mais especial foi a noite que fiquei num Hospital de Peregrino. Os hospitais são lugares que não cobram, aceitam donativos. Em geral, nesses lugares, se dorme num colchão daqueles de ioga, no chão, com seu saco de dormir. Mas eles são o tipo mais tradicional de acomodação, os primeiros, o que deu origem aos albergues municipais. Antigamente, os hospitais só recebiam peregrinos em condições muito ruins, daí o nome. São construções antigas e simples, com jantar e café da manhã comunitário, e só pode ficar lá os peregrinos que chegarem carregando suas mochilas e a pé (muita gente usa um serviço de transporte de mochilas).

Passasse a maior parte do tempo sozinha ou com o pessoal que conhecesse lá?

Caminhei a maior parte do tempo só. Por opção. Mas quase todo dia caminhava alguns quilômetros com os amigos que fui colecionando. Todo dia é uma festa, uma grande comunhão. Todo dia você vê todo mundo ao longo do percurso.

 

O que foi mais difícil fisicamente?

Eu não tive grandes problemas físicos. Não sofri com nenhuma bolha grave, por exemplo. Nem tive lesões de joelhos.
Mas acho que o que mais me incomodou foi o inchaço dos pés – todo dia inchava muito e estou até hoje sem sentir os dois dedões. Sofri muito de câimbra também. Até que comecei a tomar potássio toda noite e passou.

E psicologicamente?

O mais difícil psicologicamente foi lidar com a ansiedade, com a consciência de que eu raramente estou no momento presente. Explico: eu começava a caminhar (e os começos de manhãs são sempre os momentos mais duros, pois o corpo está frio e a musculatura, castigada, muito rígida) e estava pensando em quando eu ia parar. Depois, pensava que tinha que resolver algo no próximo povoado, ou em algo que precisava resolver no Brasil etc. E com o passar das horas, que lá parecem dias; e dos dias, que lá parecem semanas, eu fui percebendo isso e contornando, tentando aproveitar cada segundo. E funcionou. Essa não foi a primeira vez que percebi isso em mim. Em cursos de autoconhecimento já tinha me dado conta, mas lá foi um desafio muito pulsante.

O que te surpreendeu?

Eu. Minha força. Minha energia, Minha determinação. Minha capacidade de ir além da dor, da chuva, do vento, do frio. Meu corpo e como ele pode mais do que eu poderia supor.

 

Ir compartilhando tudo nos stories foi importante pra tu?

Eu compartilhei minha viagem da Chapada no finado Snap e foi massa. Daí lá eu fiz também. Mas não é um décimo do que vivi. Acho legal, é uma forma de deixar as pessoas que tavam torcendo e curtindo a minha viagem muito próximas. Meus amigos, minha família, eles acompanharam tudo. E me surpreendeu que muitos colegas e conhecidos também eram visitantes frequentes por lá e, desde que voltei, quando vou encontrando com essas pessoas, elas comentam que acompanharam tudo, que curtiram conhecer o Caminho etc. Acho incrível. Eu sou heavy user de rede social assumida.

Como tu se sentiu ao chegar em Santiago?

Eu não sei descrever. Mas acho que, pela primeira vez, vivi um estado de graça. Cheguei num dia de muita chuva, entrei na cidade pingando. Eu não conseguia parar de caminhar, não queria parar pra tirar minha capa. Só caminhar e pensar como eu era foda e como o Caminho é mesmo só uma grande metáfora.

Tua mochila tinha quantos quilos? Faltou ou sobrou algo?

Inicialmente, 9kg. Em Pamplona, no terceiro dia, eu despachei 2,5kg nos Correios direto pra Santiago. Era impossível continuar com os 9kg e tinha muito supérfluo. Então, eu fiz 20 dias de caminhada com apenas uma calça e quatro camisetas (poderia ter levado menos, mas eu não queria ter que lavar roupa todo dia). Só tinha uma camisa pra usar à noite. E era isso. Sem choro, nem vela. Nada de shampoo, condicionador etc. Era um sabão liquido pra lavar cabelo, corpo e calcinha. O caminho é isso. Desapegar de vaidade. Pra mim não foi difícil isso, eu pago pra não ter que me maquiar, nem me arrumar muito. Então, na real, o Caminho era uma liberdade imensa nesse questão. Era engraçado mostrar suas fotos da “vida real” para as pessoas lá. Elas não me reconheciam toda produzida, nem eu a elas. Lindo isso, né? Depois que despachei, acho que fiquei com uma mochila ok. Nem mais, nem menos.

Passasse quanto tempo lá e em outras cidades antes ou depois do caminho?

Viajei para o Caminho. Cheguei em Madri à noite num domingo. Na segunda às 7h segui para Pamplona- Saint Jean e no dia seguinte (terça, no caso) comecei a caminhar. Na volta, passei um dia em Madri e dois em Lisboa. ADORARIA ter podido viajar mais depois, só pra prolongar aquele estado de espirito que eu vivenciei. Mas o desafio agora é esse: trazer ele pra cá, pro Recife, pra confusão. Voltei muito feliz com essa perspectiva também, por mais demagogo que pareça.

O que mudou dentro de tu? (se é que é possível explicar)

Ai… a pergunta mais difícil. Naturalmente. Mas vou tentar colocar o que eu penso. Eu acho que epifanias não acontecem quando a gente quer. Não são necessariamente grandes momentos. Eu vi a luz no Caminho? Aconteceu algo místico ou espiritual? Em termos pragmáticos: NÃO. Mas eu acho que o Caminho foi uma boa oportunidade para eu interiorizar conhecimentos sobre mim, sobre o que acredito no mundo e no ser humano. Conhecimentos que eu tenho lido, escutado, buscado. A gente escuta muita coisa na estrada do autoconhecimento, das buscas, das terapias holísticas. São premissas meio óbvias, mas a verdade é que nem sempre o óbvio tá impregnado na gente. O meu Caminho não acabou, então eu não posso te dizer que eu estou diferente. Porque, se Deus quiser, o Caminho ainda vai me modificar por anos, ainda vai ecoar em mim quando eu menos esperar.

Que conselhos darias pra alguém que esteja pensando em fazer o caminho?

LEIA MAIS DO QUE EU LI. MAS NÃO LEIA TUDO. É SEU CAMINHO, NÃO SE CONTAMINE COM A EXPERIÊNCIA DOS OUTROS. CUIDADO COM ESSE LIMITE. Peça ajuda em grupos e fóruns de internet. Os peregrinos são os melhores conselheiros. Não sei o que teria sido de mim sem a ajuda desses amigos que nunca conheci, mas que não me faltaram enquanto estive perdidinha por lá. Um deles até fotografou as páginas principais do guia que tinha e me mandou por zap! Me salvou! E DEFINITIVAMENTE: LEVE UM GUIA.

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1 Comentário

  1. Delmar

    Qual guia vc pegou Manu?

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