Dicas Práticas

Work exchange: quando a troca de trabalho por hospedagem vira exploração

Conhecer um lugar novo sem gastar com hospedagem e alimentação, adquirindo novas habilidades e trocando experiências com moradores do local e gente de várias partes do mundo. Essas são vantagens de muitos programas de work exchange, em que viajantes podem usar plataformas como Worldpackers, Workaway, WWOOF e Helpx pra encontrar oportunidades de trabalho em troca de um lugar pra dormir e, em alguns casos, uma ou mais refeições por dia. Mas será que é tudo sempre tão bonito como parece?

Viajei assim três vezes e conheço muita gente que o fez também, através dos sites mencionados acima ou entrando em contato direto com os anfitriões. Felizmente, minhas experiências e a maioria das que conheço foram extremamente positivas, mas nem sempre esse vai ser o caso. Afinal, mesmo com as regras estipuladas pelas plataformas, no fim das contas se trata de uma troca informal – os viajantes costumam entrar no país como turistas e as condições do trabalho não seguem necessariamente as leis locais ou internacionais referentes a “trabalho voluntário”.

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Pra o viajante, isso significa que há o risco de ter seu trabalho explorado. Já testemunhei e li sobre casos em que o anfitrião exigia mais horas de trabalho do que o combinado, em que as condições de hospedagem e alimentação eram bem inferiores ao prometido e até casos em que os voluntários precisavam fazer um trabalho pesado demais pra seu condicionamento físico, ou entrando em contato com produtos químicos que podiam causar danos à saúde.

Vi uma colega viajante ter que trabalhar 40 horas por semana em troca de condições de moradia e alimentação superprecárias, num hostel em que não havia nenhum funcionário contratado. O dono do albergue tava claramente usando o trabalho voluntário pra substituir empregados contratados com todos os direitos, prejudicando não só quem participava do esquema, mas também a população local, que perdia oportunidades de emprego. Há quem argumente, nessa mesma linha, que a popularização desse tipo de troca desvaloriza o trabalho remunerado em hostels e similares.

Sem falar que muitas vezes os participantes têm pouca grana e recursos práticos pra partir pra um plano B quando percebem que tá rolando exploração. No caso da colega que mencionei acima, tive a impressão de que o dono do hostel nem se preocupava em ser justo com os voluntários porque sabia que eram bem jovens, não queriam voltar pra casa e não tinham grana pra sair de lá de uma hora pra outra.

Então work exchange é sempre uma roubada?

Nos meus três work exchanges achei a troca justa. No primeiro, trabalhei dando consultoria digital e apoio na recepção de uma pousada, mas as vagas de trabalho voluntário não eram essenciais pra o funcionamento do lugar. Em troca, recebia hospedagem (com café da manhã) que custaria mais do que o valor médio das horas trabalhadas.

No segundo, trabalhei ajudando um casal que tem uma horta pra consumo próprio. Eles buscavam um pouco de alívio na carga de trabalho e a troca de experiências com gente diferente, porque moram sozinhos e são superativos e comunicativos. Trabalhei mais lá do que nas outras duas experiências, mas também tive muito mais “regalias” em troca. Dormi num quarto confortável, fui levada pra passeios, tive conversas interessantíssimas com meus anfitriões, pratiquei francês e comi melhor do que nunca na vida.

No terceiro, trabalhei com mais um monte de voluntários de vários países num hostel, e as funções realizadas (desde arrumar camas a recepção) eram feitas com supervisão dos funcionários contratados. Pelo que vi, tudo funcionaria sem os voluntários e o trabalho feito por nós me pareceu mais uma “ajuda extra”.

Também conheço várias outras histórias positivas em diversos países e com diferentes tipos de trabalho. Por isso, acho que vale a pena continuar viajando nesse esquema, mas continuo me perguntando: onde fica o limite da ética e responsabilidade de ambas as partes? Não tenho respostas prontas, mas penso que no mínimo é preciso conscientizar todos os envolvidos pra evitar abusos, dialogar com os anfitriões pra ajustar expectativas, boicotar anfitriões mal intencionados e estimular o debate sobre o assunto.

Saiba mais sobre minhas experiências com work exchange:

Trabalhando num hostel em Budapeste
Trabalhando numa pousada em Paraty
Trabalhando no interior da França

Conheça histórias de outras viajantes que usaram work exchange:

Pernambucana viaja pelo mundo sem pagar por hospedagem
Slow travel: jornalista explora América Latina e Ásia sem pressa
Paulista viaja pelo Brasil e Europa trocando trabalho por hospedagem

Como evitar experiências ruins?

Esses três períodos de work exchange foram as melhores (e mais baratas) partes dos meus seis meses de mochilão pelo Brasil e pela Europa; experiências que sempre vou recordar com muito carinho. Recomendo muito esse esquema de viagem pra quem quer passar mais tempo no mesmo lugar, conhecer gente, praticar idiomas e exercitar ou adquirir habilidades diferentes (de jardinagem e cuidar de cavalos a programação e grafitagem), tudo isso gastando muito pouco.

Mas pra dar certo, é preciso antes de tudo estar consciente de que você não vai estar numa viagem comum de férias, sem compromissos fixos e hora pra acordar, e que precisa ser responsável com suas funções. E também, como em outras formas de “intercâmbio”, que pode ser necessário exercitar a tolerância e flexibilidade: talvez a comida oferecida lhe pareça estranha, talvez o banheiro fique do lado de fora da casa, talvez seus colegas de trabalho sejam fechados em comparação com brasileiros, enfim, talvez você tenha que se adequar a vários hábitos da cultura local que são diferentes dos seus. Isso faz parte da experiência, mas cabe a você avaliar se alguma situação é desconfortável demais.

Como em toda viagem, é preciso ter cuidado e bom senso. Nesse caso, acredito que um viajante responsável deve avaliar as condições da troca, antes e durante a viagem, pra considerar se o projeto em questão parece ser justo pra as duas partes (anfitrião e voluntário) e também pra comunidade. Isso vale especialmente pra trabalhos em ONGs e creches/orfanatos, que muitas vezes mais atrapalham do que ajudam, mas isso é assunto pra outro post (se você quiser saber mais sobre “volunturismo” e desenvolvimento social,recomendo esse vídeo do TED e uma busca na internet pra achar muitos textos interessantes).

É importante ler com atenção a descrição das funções e dos benefícios da vaga, escolher um trabalho que você realmente quer e se sente capacitado pra fazer, esclarecer todas as dúvidas durante a troca de mensagens com o anfitrião e entrar em contato com voluntários que já passaram pelo lugar. Esses sites costumam ter reviews dos viajantes, mas mesmo vendo vários comentários positivos eu sempre enviei mensagens privadas pra saber mais informações e confirmar que a pessoa não escreveu algo bom só pra “ficar bem na fita”.

A partir de tudo que você leu/ouviu, se pergunte: a quantidade de horas de trabalho e as exigências da função são compatíveis com o que é oferecido em troca? Essa vaga parece estar substituindo o trabalho que seria de um funcionário contratado em tempo integral? Você vai ter que realizar funções que oferecem algum risco à sua saúde ou à de outras pessoas ou animais? Vai precisar realizar tarefas muito complicadas sem supervisão?

Também recomendo ter um “plano B” pra não entrar em desespero caso a realidade do projeto se mostre diferente do combinado. Além de informar os dados de contato e endereço do lugar pra alguém de confiança, vale a pena guardar uma reserva de grana, pesquisar formas de chegar a outros lugares a partir de lá, dar uma olhada em outras oportunidades de work exchange, couchsurfing, hotéis ou hostels nas proximidades etc. Assim, você não fica refém do anfitrião ruim e evita estimular iniciativas que parecem ser nocivas à comunidade.

E você, o que acha dessa história? Já viajou nesse esquema, ou quer viajar? Pensa que esse tipo de viagem tá se perdendo do propósito inicial (focado no compartilhamento e troca entre pessoas) e estimulando a precarização do trabalho? Tem dicas pra quem quer fazer work exchange de forma responsável? Fala aí nos comentários!

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4 Comentários

  1. Adorei a reflexão, Luísa! Absolutamente necessaria!
    “Pensa que esse tipo de viagem tá se perdendo do propósito inicial (focado no compartilhamento e troca entre pessoas) e estimulando a precarização do trabalho?” – sim, penso.

    Comecei um mochilao pelo nordeste brasileiro há 20 dias, até então passei por Natal, Pipa e João Pessoa, e confesso estar assustada com a popularização do work exchange. Cheguei em um hostel em Jampa onde TODOS os funcionários da recepção são voluntários. Em Pipa eh muito difícil encontrar uma situação diferente também… O nível de qualidade do serviço vai, e a população paga o preço com a falta de emprego, num cenário que poderia ser absolutamente diferente. Entendo que pros donos do hostel essa eh uma forma simples de minimizar seus custos operacionais, mas essa é uma pratica totalmente desregrada e que em nada beneficia a população local. Acredito q seja necessária uma regulamentação.
    Recentemente decidi trocar de histel inclusive porque o serviço prestado era tão ruim, mas tão ruim, q nem informações básicas sobre locomoção, localização de farmácias e supermercados, info sobre passeios, sabiam dar: na recepção só existia voluntários recem chegados à cidade!

    • Pois é, ainda tem isso: a queda do nível de serviço. É meio louco os proprietários não perceberem/valorizarem a importância de ter uma equipe treinada, experiente e comprometida, né? Acho que uma regulamentação, como você falou, seria muito benéfica. Tipo estabelecer um percentual limite do quadro que poderia ser “ocupado” por voluntários, ou determinar que é sempre necessário ter um funcionário contratado na recepção, mesmo que acompanhado por um voluntário (pra ajudar mostrando os quartos, coisas assim), enfim… Mas acho bem difícil esse tipo de regulamentação surgir e mais ainda ser fiscalizado/respeitado, né? Um abraço e valeu pelo comentário! :)

  2. Roberta

    Obrigada por compartilhar esse texto, Luisa! A reflexão é importantíssima. Tive experiências maravilhosas em meu mochilão pelo Nordeste e uma que foi um pesadelo. Demorei pra sacar que estava sendo explorada e o final foi bem conturbado e triste. Achava que só pq alguém tem um hostel (um ambiente tão massa pra troca) ele não poderia ser muuito mal intencionado. Acordei e hoje pesquiso muito pra não me ver envolvida em uma situação assim novamente. É triste ver a possibilidade de troca de experiências ser tão mal valorizada e explorada, realmente o cenário poderia ser bem diferente. Baseado em testemunhos reais, acredito que as plataformas responsáveis pela comunicação entre os voluntarios e anfitriões poderia fazer uma busca e manutenção desses relacionamentos, para saber se realmente aquela proposta é boa para ambos os lados. Seguimos compartilhando experiencias!
    Abraços
    Roberta

    • Que pena que você passou por isso, Roberta! Também tenho tendência a não interpretar o pior, mas infelizmente esses relatos têm sido bem comuns. Mas é vivendo e aprendendo, né? Como você falou, seria ótimo se essas plataformas ajudassem de fato a verificar se as experiências estão sendo positivas. É sempre bom o viajante entrar em contato com eles alertando quando a proposta não rola como combinado, né? Obrigada pelo comentário! Um abraço :)

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