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Os Bebês de Auschwitz: três jovens grávidas e sua luta pela vida

Quando ouvi falar no livro “Os Bebês de Auschwitz” pela primeira vez, imaginei que seria uma história focada no campo de concentração mencionado no título em português (a versão original, descobri depois, é “Born Survivors”). Mesmo com esse recorte o livro seria emocionante, mas ele vai muito além, reconstituindo as vidas de três mulheres desde antes da entrada em vigor das regras antissemitas até sua libertação do campo de Mauthausen, onde estavam no fim da guerra. Nesse meio tempo, além de Auschwitz elas passaram por guetos, outros campos de concentração, uma longa e terrível viagem de trem, uma fábrica onde faziam trabalho forçado e muitas situações que ninguém jamais deveria enfrentar. E, como se não bastasse, durante boa parte do tempo estavam grávidas.

A autora, Wendy Holden, ficou sabendo por acaso da história de um dos bebês sobreviventes (que, no caso, já era uma adulta). Ao descobrir que existiam mais dois, dedicou um impressionante esforço de apuração pra relatar os três únicos casos conhecidos de mulheres grávidas que tiveram filhos nas estruturas de terror nazistas e sobreviveram junto com os bebês. Recorrendo a entrevistas, leitura de cartas e diários, visitas aos lugares onde tudo aconteceu e muita pesquisa sobre o contexto histórico, ela construiu uma narrativa emocionante sobre um assunto que já foi abordado à exaustão, mas segue sendo extremamente pertinente.

“Foi quando começamos a nos preparar para algo que não sabíamos definir, algo que ninguém podia cogitar. Achávamos que as pessoas estavam apenas dramatizando. Não sabíamos que eles estavam matando gente em série.”

Na época da ascensão de Hitler, Priska e Anka, da Checoslováquia, e Rachel, polonesa, eram jovens e tinham muitos planos. Se apaixonaram, casaram e sonhavam com um futuro feliz em família. Demoraram, como muita gente na época, pra se dar conta da dimensão do horror que estava tomando a Europa e dos anos sombrios que ainda iam vir. Foram perdendo sua liberdade aos poucos, até que se viram em situações tão absurdas que seu único pensamento era sobreviver e dar vida aos filhos que carregavam, escondidas.

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No livro, acompanhamos o processo que transformou as três mulheres, antes livres e felizes, em vítimas de uma crueldade sem limites. Vemos passá-las por situações desesperadoras, recheadas de injustiça, mas também se destacam pequenos e grandes episódios de solidariedade entre as prisioneiras e por parte de alguns cidadãos que se arriscavam pra ajudá-las.

Enquanto isso, somos lembrados de que a maioria das pessoas que moravam perto dos aparatos de horror por onde elas passaram seguiam suas vidas, assim como em Dachau. Enquanto elas caminhavam quase congelando pelas ruas de Freiberg pra trabalhar numa fábrica de componentes pra aviões de guerra, viam os habitantes em sua rotina normal: crianças brincando na neve, casais passeando felizes.

Da mesma forma, o trem que as levaria pra morte passou diante de centenas de pessoas viajando pela Europa, que sentiam o mau cheiro vindo dos corpos doentes e em decomposição. E os moradores dos arredores do complexo de Mauthausen, onde se colocavam em prática mais de sessenta métodos de assassinato, tiveram sua economia favorecida pela presença dos guardas da SS, que frequentavam bares, lojas, restaurantes e se casaram com muitas mulheres locais.

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A sobrevivência dessas três mulheres e dos seus bebês, desnutridos e doentes, foi praticamente um milagre. Muitos dos prisioneiros que resistiram até a libertação não sobreviveram depois da guerra – milhares morreram de diarreia por receber comidas sólidas, que seus corpos já não conseguiam mais digerir, ou em consequência de várias doenças. Muitos outros sofreram ao voltar pra casa e sentir o ódio que continuava existindo contra os judeus, além de não encontrar mais um lar, familiares ou amigos. Mas, como diz o livro, “Os bebês delas acabaram tendo filhos também, criando uma segunda e uma terceira geração, em patente desacato aos planos de Hitler de apagá-los da história”.

“Fui abençoada com um espírito bastante otimista, o que me ajudou muito. Eu sempre olhava para cima, nunca para baixo. Sabia que conseguiria, o que era algo completamente ilógico, irracional, mas eu vivia com essa ideia, mesmo quase morrendo.”

Um dos melhores livros que li em 2016 – quiçá na vida -, “Os Bebês de Auschwitz” me levou às lágrimas um punhado de vezes, não só pelos horrores descritos, mas pela sensibilidade com que homenageia a luta dessas mulheres, resistindo em nome do que temos de mais precioso e fugaz: a vida.

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