Viagem pra Dentro

Meu jeito de viajar não é melhor do que o seu

Se a gente se conhecesse realmente bem e se aceitasse, ao menos metade dos nossos problemas estariam resolvidos. É claro que isso não é nada fácil: você já viu quanta gente problemática tem por aí, né? Começando por essa que vos fala, é claro – sinto como se tivesse acabado de entrar nessa estradinha do autoconhecimento, que é cheia de curvas loucas e confusas, mas também inclui umas cachoeiras de águas límpidas aqui e ali. Caminhos metafóricos à parte, acredito que se a gente ficasse mais bem resolvido na nossa pele seria muito mais fácil a) aceitar o amiguinho que é diferente; b) não se comparar tanto com os outros. Isso vale pra vida inteira, mas o assunto aqui nesse post é viagem.

Porque o que não falta, confessemos, é a presunção de que tal jeito de viajar é melhor do que os outros. Tanto por parte de quem diz (e acha que o seu é melhor) quanto por quem vê de fora, pensa que não é capaz ou não tem coragem/dinheiro/tempo pra fazer aquilo e se lamenta por isso (mesmo que, muitas vezes, aquele nem seja seu estilo de viagem).

Isso partindo já do princípio de que a criatura realmente queira viajar, tá? Porque, como já falei nesse post e nesse aqui, viagem não é solução mágica pra problemas nem garantia de transformar ninguém numa pessoa melhor, e não tem nada de errado (por mais que nós blogueiros possamos fazer parecer, ou até dizer literalmente) com quem prefere viver uma vida zero nômade, muito satisfeito na rotina do mesmo bairro onde nasceu, se esse alguém é realmente feliz assim.

Tou falando, no caso, de quem gosta de viajar, mas fica comparando seu estilo de viagem com o dos outros. E falo com propriedade: já perdi preciosos minutos em que podia estar blogando, dormindo ou soltando pipas nessa coisa de matutar sobre como eu talvez devesse viajar de um jeito mais tal e menos seiquelá.

Não me entendam mal: acho importantíssimo revermos sempre nossos hábitos e velhas opiniões formadas sobre tudo e experimentarmos coisas diferentes. Felizmente, penso que hoje viajo melhor (dentro do que funciona pra mim) do que no passado. Consigo me abrir mais ao novo, conhecer mais gente, explorar os lugares num ritmo mais gostoso e ter cada vez mais consciência do meu impacto (e de outros turistas) em cada canto.

Mas é aí que tá a parte capciosa: ao mesmo tempo, é preciso respeitar o que é da nossa personalidade. Os nossos limites, gostos, nosso funcionamento particular. Porque nenhuma pessoa é igual à outra (ainda bem!) e seguir uma cartilha não escrita de como se comportar não faz o menor sentido.

Pensei nisso algumas vezes nos últimos meses, enquanto planejava minha próxima grande viagem e precisei lembrar a mim mesma de que por mais que eu queira conhecer infinitos destinos, fico muito mais feliz quando tenho uma rotina em um lugar. E que por mais que queira fazer o suado dinheirinho render muito, nem toda economia vale a pena pra mim.

Também pensei muito nisso ontem, enquanto conversava com uma conterrânea viajante que entrevistei pra um post que entra aqui em breve. Eu já desconfiava, pelo que acompanhava das viagens dela pelas Américas, Europa e Sudeste Asiático, e a conversa ajudou a confirmar: ao mesmo tempo em que rola uma identificação grande, nossas personalidades diferentes se refletem em algumas escolhas diferentes.

Porque ela, assim como outros tantos viajantes, tem uma pegada mais go with the flow, se jogando sem muito (ou nenhum) planejamento ou objetivo concreto. Enquanto eu acho isso muito massa e posso querer viajar assim um dia (talvez em breve), também amo saber, meses antes, onde vou estar e o que vou fazer – mesmo que mude tudo depois. E ao contrário dela, que tinha uma vontade pura e simples de conhecer outras realidades e foi vendo no que dava sem saber pra onde ia depois, dificilmente eu conseguiria passar muitos e muitos meses pelo mundo sem um propósito concreto que me ajudasse a justificar a viagem pra mim mesma (mais até do que pra sociedade).

Já houve um tempo em que isso me incomodou; que eu queria ser mais “aventureira”, digamos assim. Mas percebi que hoje faz sentido dentro de mim: isso é quem eu sou, e tá tudo bem. Tudo ótimo, aliás. Porque eu consigo aproveitar minhas viagens do meu jeito, e o que eu não vou gostando, posso ir ajustando. Assim como essa viajante querida (calma, daqui a pouco ela aparece aqui!) aproveita as dela, e sente que fazem sentido pra ela.

E como ela também comentou comigo, muita gente diz, quando vê as histórias dela ou de outras pessoas que se jogam pelo mundo num esquema mais improvisado – ou, como classificariam alguns, vidaloka: “ah, queria viajar assim, mas não tenho coragem”. Se você realmente quer assim, dá uma ignorada nesse medo, busca informações práticas e pula de uma vez na água, porque só assim vai descobrir se tá gelada demais pra você. Mas se não sabe se é bem isso que você quer, ou só acha que é isso que quer porque parece bonito no Instagram, olha pra dentro e pensa: por que não ser feliz com seu jeito de viajar?

Afinal, o que não faltam hoje são jeitos diferentes: tem trabalho em troca de hospedagem, intercâmbio em família, safari de luxo, aplicativo de carona, tour de compras, roteiros de turismo comunitário. E você, ao decidir viajar, pode escolher qualquer coisa desse imenso e variado leque. Pode ser com pacote CVC, pra o mesmo destino todo ano. Pode ser acampando, fazendo couchsurfing ou ficando em albergues. Por ser de carona, de trem, de classe executiva. Pode ser chegando nos lugares sem saber o que fazer e aceitando convites pra qualquer atividade que aparecer ou traçando extensos roteiros e preferindo a contemplação e a introspecção. Pode ser o infinito e além! ;)

Viajar tem a ver com superar seus limites, sair da zona de conforto, experimentar coisas diferentes, se libertar de amarras sociais. Por isso, acredito que vale a pena fazer, às vezes, um esforcinho pra realizar o que o medo ou a mesmice não te levariam a fazer naturalmente. Mas também acho que viajar tem tudo a ver com respeitar quem você é, o momento que tá vivendo e o que você sente que é confortável, seguro ou agradável. Não pra mim, pra outros blogueirinhos, pra os seus colegas de trabalho ou pra quem vai ver seu Instagram. Pra você.

Crédito das fotos do post: Pexels – licença Creative Commons Zero (CC0)

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