Bahia

Casa do Rio Vermelho, em Salvador: uma visita à intimidade de Jorge Amado e Zélia Gattai

“Se for de paz, pode entrar”. Só quando minha tia foi pra Salvador e comprou um tapete com esses dizeres pra entrada lá de casa eu descobri que a Casa do Rio Vermelho, onde moraram Jorge Amado e Zélia Gattai, tá aberta pra visitação desde 2014. Minha última visita à capital baiana tinha sido antes disso (veja os posts aqui) e não tive dúvidas de que passaria por lá a tarde livre que teria na cidade em breve, antes de voar pra Barcelona.

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Paz, aliás, foi o que senti no minuto em que pisei nos jardins da casa. Numa terça-feira meio chuvosa, eu era uma das poucas visitantes; dava quase pra sentir como se fosse uma dos tantos amigos que o casal já recebeu ali (me achando, né  :B).

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O número 33 da Rua Alagoinhas abrigou Jorge e Zélia por 40 anos, e durante esse período eles colecionaram muitas obras de arte, que seguem expostas pelas paredes, e muitos amigos. Não surpreende, então, que a casa tenha essa energia tão boa: ela foi sempre um lugar de celebração à vida e aos encontros.

Agora transformada em memorial, a estrutura original da casa foi mantida, mas os cômodos ganharam um projeto museográfico interessante com vídeos, efeitos sonoros, fotos e exposição de objetos de uso pessoal dos antigos – e ilustres – moradores. São mais de 30 horas de conteúdo audiovisual sobre o casal; um prato cheio pra quem quer realmente mergulhar na vida desse cara que reinventou a Bahia.

Caso suas pretensões sejam mais modestas, sem bronca: a casa é um ótimo passeio antes de ir comer um acarajé na Dinha, ali perto, e dá pra dar uma boa geral no espaço sem estresse em pouco mais de uma hora.

Se puder, participe também de uma das visitas guiadas, que são gratuitas e duram uns 40 minutos. É uma boa oportunidade pra entender um pouco melhor a dinâmica da casa e descobrir curiosidades sobre as vidas de Jorge e de Zélia. :)

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O passeio começa pelo jardim delícia que mencionei lá em cima, onde foram depositadas as cinzas dos dois escritores, entre pés de manga, jambo, saputi, pitanga e tamarindo. Plantadas por eles, as árvores ainda dão frutos (boa metáfora, né?). No espaço, você pode admirar um banquinho onde eles costumavam se sentar, ou um exu de ferro que toda segunda-feira recebe uma cachacinha como oferenda.

Também vale conferir dois gazebos com vídeos rodando em looping: um deles fala sobre a amizade de Jorge com várias mães de santo, enquanto o outro reúne conversas de amigos como Caetano, Nelson Pereira dos Santos, Jards Macalé e Sônia Braga. Eu deixaria essas partes pra o final, pra sentar e assistir com calma depois de explorar a casa, mas talvez seja porque sou ansiosa e tava doida pra explorar os cômodos lindinhos. :)

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Partindo pra varanda aberta você encontra o quarto onde dormia Dona Lalu, mãe de Jorge, e depois os netos do casal. Ao ser aberto ao público, o espaço recebeu um monte de fotos antigas de família e projeções que contam sobre a infância do escritor (meu xará de aniversário), que saiu de uma pequena fazenda perto de Itabuna pra Ilhéus, onde viu o mar, aprendeu a ler e alimentou sua imaginação.

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No quarto ao lado, vemos souvenirs dos 110 países que o casal conheceu. E vale ressaltar: Jorge morria de medo de avião, mas ainda assim colocou em prática o espírito aventureiro, enchendo o passaporte de carimbos e o repertório de costumes, sensações, sabores e histórias. ;)

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De lá, você vai passar também pela sala onde o baiano comia e escrevia (duas das minhas atividades preferidas). Nela tá exposta a máquina de escrever que ele usava (apesar de ser ruim em datilografia), além de xilogravuras, ilustrações e os móveis originais.

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No antigo quarto de hóspedes, escuta-se um áudio que fala sobre os amigos que passaram por lá. Uma galera desimportante como Neruda, Glauber Rocha, Tom Jobim, Polanski, Sartre e Simone de Beauvoir ficou hospedada ali, numa cama de alvenaria decorada com azulejos de Carybé – artista amigo cujas peças tão espalhadas pela casa. Tem também umas camisas de Jorge, que achei meio sem sentido colocarem ali, mas não importa, né? Até porque são ótimas camisas, cheio de estilo ele. :P

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Outro ambiente importante na casa era a cozinha, que na verdade são duas, porque depois de alguns anos Jorge comprou o terreno vizinho e fez outra (achei certíssimo). Na primeira você encontra eletrodomésticos retrô fofuxos e utensílios trazidos de viagens e de feiras do recôncavo baiano.

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Na segunda, representações de pratos típicos baianos e um vídeo com a baiana Dadá ensinando a preparar as receitas (que você pode enviar pra si mesmo por e-mail, usando um tablet disponível lá). Ah, e tem minha parte preferida: amostrinhas dos principais temperos usados na culinária baiana pra você enfiar a mão e cheirar. ;)

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Seguimos então pra o segundo quarto de hóspedes, também construído posteriormente. O lugar foi transformado em sala de leitura, com vídeos de personalidades (de Sônia Braga a Ivete Sangalo) lendo trechos de obras de Jorge, acompanhados por fotografias e ilustrações. Uma lindeza que me deixou cheia de vontade de ler/reler as obras dele.

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Já o antigo escritório virou biblioteca, com algumas das principais traduções dos seus livros, um vídeo que resume algumas obras, máquinas fotográficas que pertenciam a Zélia, gravuras do baiano Calasans Neto, cordéis e repentes pra ouvir com fones.

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Do lado de fora, você encontra uma lojinha com itens interessantes como o tapete que minha tia comprou (hehe) e o “lago dos sapos”, que tá seco porque tão instalando uma bomba pra movimentar a água e evitar dengue.

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De volta à parte antiga da casa, encontramos uma das minhas partes preferidas: um gaveteiro com cartas que o casal trocou no período em que Jorge tava exilado (ele foi preso 11 vezes e passou 19 anos entre países como França, Chile, Rússia, Polônia, Uruguai e Argentina). Também vi correspondências de Drummond, Yoko Ono, Caymmi e Érico Veríssimo. Bons pen pals o homem tinha, viu?

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Enquanto você explora o espaço, algumas cartas vão sendo narradas num áudio que ecoa pelo ambiente, e de tempos em tempos aparecem projeções de Jorge e Zélia falando. Logo ao lado, tem também um espaço dedicado à vida política do escritor, com documentos e áudio sobre sua militância, o tempo no exílio e seu mandato como deputado.

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Daí partimos pra uma sala focada na vida de Zélia, com reproduções de bonecos (meio macabros haha) que ela fazia, posicionados de um jeito a formar uma árvore genealógica da família. Tem também seu laboratório de revelação de fotos e alguns itens de uso pessoal como máquina de datilografar, vestidos e cadernos.

E chegamos, então, ao quarto do casal: decorado com itens trazidos de vários países, ele recebe uma projeção com trechos de livros de Jorge que falam de amor. <3

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Pra finalizar, outra varanda reúne uma coleção de cofrinhos, objetos de arte popular e esculturas africanas, além de muitos sapos (mania do escritor) e livros sobre a vida e a obra do casal e sobre a Bahia, disponíveis pra consulta.

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Serviço

Atualmente, a casa funciona de terça a domingo, das 10h às 17h; confirme no site oficial antes de ir.
Os ingressos custam R$ 20 (ou R$ 10 pra estudantes e idosos), mas nas quartas-feiras a entrada é gratuita.
O endereço é Rua Alagoinhas, 33, Rio Vermelho. Fique ligado: a rua é estreita e pode ser difícil estacionar. Dá pra pegar transporte público até a área mais comercial do bairro (essa parte é bem residencial e acho que não tem ônibus) e ir andando ou de táxi até lá.

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