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Slow travel: jornalista explora América Latina e Ásia sem pressa

Viajantes | 08/05/17 | 4 comentários

Viajar sozinha, devagar, sem roteiro definido, priorizando uma rotina mansa em vez de “grandes aventuras” e explorações frenéticas de pontos turísticos “obrigatórios”. Esse era o objetivo de Carolina Albuquerque, 29 anos, jornalista pernambucana que deixou o Recife em maio de 2016 rumo à Chapada Diamantina. Ela segue na estrada até hoje, tendo passado por 9 países na América Latina e na Ásia desde então.

Carol é adepta do chamado “slow travel” – o termo é em inglês porque a tendência começou a ser envelopada dessa forma na gringa, inspirada no “slow food“, movimento criado na Itália nos anos 80 pra reagir à fastfoodização da gastronomia. A filosofia por trás do conceito é, em linhas gerais, simplesmente desacelerar. Viajar com uma rotina tranquila, usando seu tempo pra aproveitar o lugar de forma mais profunda e, idealmente, mais sustentável também. Focando em entender as pessoas, os modos de viver e os espaços que conhece, ao invés de passar o tempo todo em filas e deslocamentos, preocupado com os cartões postais a serem visitados e a quantidade de carimbos acrescentados ao passaporte.

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Gosto desse jeito de viajar. Quando comecei a seguir as viagens de Carol pelo Instagram, os registros do percurso me chamaram atenção pelo ritmo tranquilo e o olhar atento à cultura de cada destino. Se hospedando em Couchsurfing e fazendo trabalho voluntário em troca de acomodação durante cerca de metade do tempo de viagem, a jornalista tá fazendo render as economias que juntou durante quatro anos de trabalho e já coleciona um punhado de experiências que não estão nos guias.

Ela passou, por exemplo, duas semanas numa pequena comunidade no Vale Sagrado dos Incas, no Peru, e uma semana em uma casa de artistas nas montanhas de Córdoba, na Argentina. Passou mais um bom tempo viajando de moto pelo Laos e Vietnam, e outro período observando diferentes formas de pensar o mundo na comunidade internacional Auroville, na Índia. E o descanso também faz parte das suas prioridades: ela ficou só relaxando durante um mês na linda ilha de Koh Tao, no sul da Tailândia.

Nesse percurso, tem alcançado um dos seus objetivos, que era entrar em contato com outras formas de trabalhar, viver e pensar o mundo – especialmente as mais criativas e sustentáveis. Sem dúvida uma vivência enriquecedora, né? Mas ela conta que sua iniciativa de “mochilar” meio sem rumo, sem cursos ou trabalhos remunerados na programação, é vista com desconfiança por muita gente: “É como se fosse ‘um ato de loucura’ para o mercado de trabalho, e não uma experiência de vida e, por que não, profissional”.

O fator “profissional”, aliás, se encaixa na viagem de Carol não só no âmbito das diferentes experiências que está testemunhando, mas também através dos exercícios criativos que vem fazendo como videomaker, no que apelidou de PeruIndia Project. Vale a pena conferir os vídeos que ela já produziu até agora. :)

Nesse ano de estrada, a jornalista já passou pelo Peru (1 mês e meio), Bolívia (1 semana), Argentina (3 semanas), Chile (3 semanas), Índia (3 meses), Tailândia (quase 2 meses), Laos (1 mês e meio), Vietnam (1 mês) e Malásia (chegou há pouco e deve ficar por 2 semanas). De lá, vai pra Europa, e depois disso não tem nada definido. Delícia, né?

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Troquei uma ideia com ela por Whatsapp, com 10 horas de diferença no fuso horário. Como esperava, recebi uma boa dose de inspiração, que vim compartilhar com vocês. :) Com a palavra, Carol:

O objetivo da viagem

Sempre sonhei com uma “volta ao mundo”. Tinha certeza que um dia iria fazê-la. O entendimento de que aquele era o momento oportuno veio por muitas razões. Estava me sentindo, de certo modo, “estagnada” no trabalho que fazia e (hahahha) desiludida com o jornalismo. Queria ter um momento muito “meu”, sem obrigações externas, senão comigo mesma. Me desafiar enquanto ser humano, emocional e criativo.

O peruindia project veio a calhar. Propus-me a exercitar minha criatividade através da linguagem do vídeo. Peru e Índia foram alçados ao título por uma questão pragmática, fonética (gosto do som da união das duas palavras) e, em algum nível, simbólica. Peru, a primeira parada da viagem,  e Índia, que teoricamente seria a última. Mas resolvi perder a passagem de volta da Índia para o Brasil e continuar viajando.

O vídeo entrou como uma nova ferramenta de trabalho na minha vida depois que fiz um curso de edição. No jornal, usei isso muito pouco. Fora do jornal, fiz alguns poucos trabalhos de vídeo para empreendedores autônomos. A viagem serviu para isso também: praticar e experimentar.

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Os maiores perrengues

Diria que passei por aqueles perrengues que todo mochileiro passa quando está viajando com orçamento limitado e em países subdesenvolvidos. Em Delhi, quando passei umas 4h presa no tuktuk no trânsito a caminho do trem (terminei chegando a tempo, embora tenha sido a última a embarcar). Ou quando um ônibus quebrou no meio do deserto em Rajastão e, no calor, tivemos que trocar umas 2 vezes. Ou no meu último mês na Índia, quando o governo da noite para o dia resolveu cancelar todas as cédulas e tive que trocar todo o dinheiro que tinha em mãos no banco. Porém ninguém tinha troco em restaurantes, lojas etc. então fiquei devendo a deus e o mundo por uma semana, mais ou menos. Ou um ônibus do Vietnam ao Laos que tardou 24h para chegar, sendo que durante o trajeto o ar condicionado não funcionava, um dos pneus explodiu e, ao lado dos passageiros, mercadorias (legumes, peixe, etc.) eram abarrotados.

O que faria diferente

Não teria comprado passagem de volta, já que perdi uns R$ 2 mil nisso. Também teria dedicado mais tempo à América do Sul, onde passei só 3 meses. E teria organizado minhas contas no banco (nos primeiros 10 meses, tinha todo o dinheiro em cash, e agora tenho que ficar fazendo transferência para VTM do meu banco porque não autorizei o uso internacional) e aplicado algum dinheiro.

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O mercado de trabalho

Estou longe do mercado de trabalho no Recife, mas viajando dedico tempo a “investigar” outras formas de trabalho. Não tenho nenhuma expectativa para quando voltar. Talvez queira continuar viajando e tocando alguns projetos pessoais (que incluem viajar). Então, pode ser que volte a fazer o mesmo por um tempo, pensando de forma bem pragmática. Ou me veja fazendo uma coisa diferente do que fazia. Tudo em aberto.

Viajar sozinha sendo mulher

Não pensava assim antes, mas não é nada difícil. Tem algumas vantagens, porque somos mais bem recebidas, em geral. As pessoas confiam mais em mulheres. Viajei 3 meses na Índia e os poucos episódios de assédio que tive lá, digo que poderiam ter acontecido em vários outros países. A questão é que estar só viajando demanda muita energia sua. Tem que cuidar da saúde, cuidar do caminho por onde vai, com quem vai, porque, no final, você está só. Não pode contar com outra pessoa, só com você. Todas as escolhas são 100% suas. Inclusive, a de se juntar a alguém ou grupo. Isso faz apurar dentro da gente o mecanismo de saber o que você quer e o que não quer de verdade. O que é muito bom. Estou muito feliz de ter dedicado esse tempo para mim, em toda a potencialidade e desafios que é ser mulher-solteira-viajante-longe de casa.

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O cansaço de viver da mochila

Cansa não ter rotina e não ter casa. Por isso, procuro controlar minha ansiedade por conhecer novos lugares. Prefiro de verdade estar mais tempo nos lugares. Na maioria das vezes, estive ao menos 1 semana em um destino, às vezes até 1 mês. Quando chego, não costumo ter roteiro. Procuro ir vivendo de acordo como me sinto em cada dia.

Aprendizados sobre si mesma

Descobri que posso ir muito além do que imaginava. Posso ficar dias sozinha, quase sem falar, ouvindo minha música, lendo etc. Como também posso viajar três meses com uma amiga (no caso uma peruana, que conheci no meio do caminho), ser flexível, mas atenta sempre ao que quero e respeitando meus quereres. Posso dirigir uma moto por três dias em montanhas com curvas desafiadoras. Posso atravessar meus medos melhor. Lidar melhor com minha insegurança também, porque longe de casa ela te coloca a prova o tempo todo. Também estou mais atenta ao que sinto, o que quero de verdade. Posso flexibilizar meu “estilo de vida”. Viver com as mesmas roupas a cada dia, muitas rasgadas, velhas, já sem cor. Ou encarar mais tranquila os perrengues. Enfim, é clichê, mas parece que o dia a dia fica mais “apurado” quando se está viajando.

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Conselhos pra outros viajantes

Difícil dar conselho. Mas acho que o mais básico é: se realmente for essa sua vontade, vá! Com medo e tudo! Chorando ou com crise de ansiedade. Se tiver que errar, beleza. É aprendizado. Se quiser se encorajar, conversa com viajantes, lê blogs, procura terapia ou alguma coisa assim. No meu caso, ter recebido algumas pessoas (muitas mulheres) como couchsurfers na minha casa no Recife super serviu de inspiração. Pensei: se elas podem, eu posso também. E quando você chega lá fora, vê que existem milhares viajando sós. Mais novas, mais velhas. De todo tipo.

Viajando devagar

Eu não ligo pra carimbo em passaporte. Digo que escolhi viajar porque gostaria de ter experiências, curtas ou profundas, mas todas com disponibilidade. Então, chamo assim: viagem de experiência. Por isso, escolhi fazer Couchsurfing e trabalho voluntário. Existe uma certa ansiedade por “novas e incríveis” aventuras que contamina o ar quando se escolhe fazer um mochilão. Isso pode combinar com outros, mas não combina comigo. Gosto do mundo mais manso, tranquilo. Prefiro passar cinco dias na rede de boa do que suar fazendo um roteirão pela cidade de Bangkok (rs). Ou outro dia, caminhar quatro horas para chegar numa praia. Quase não tenho foto de pontos turísticos e em muitos lugares fiz a mesma coisa todo dia. Cada um sabe o ritmo do passo que quer tomar. Mas acho massa pensar que cada escolha que fizer para si pode ser vivida de uma forma muito intensa e verdadeira. Acho mais ousada, por exemplo, a história de uma francesa que passou seis meses em uma praia no Espirito Santo do que o cara que já tem mais de 100 países no passaporte. São estilos diferentes de viagem. De cada um deles, o desafio é saber o que se está buscando de verdade, lá no fundo. E se você escolheu fazer uma viagem, essa é uma bela oportunidade de refletir sobre isso.

Todas as fotos do post pertencem a Carolina Albuquerque e foram cedidas para publicação no Janelas Abertas

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4 Comentários

  1. MARIO MIRANDA DE ALBUQUERQUE

    Admirável essa sua decisão Carolina, porque não é fácil abandonar a Matrix. Espero que inspira outras pessoas. Beijos

  2. Tia Nhane

    Já tô com saudades!

  3. Maria do Socorro Cavalcanti

    Depois o livro né Carolina!

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